PRÉMIOS SOPHIA 2020

22/09/2020

Os prémios Sophia é a cerimónia que visa premiar o que de melhor se faz em Portugal em termos de cinema e televisão. São atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema e acontecem desde 2013. Confesso que não costumo acompanhar com muita atenção porque o cinema em Portugal ainda é uma raridade nos cinemas e na televisão nacional. Mesmo estes prémios pouca ou quase nenhuma visibilidade têm tido nos últimos anos e por isso torna-se difícil acompanhar. Mas como a qualidade do cinema por cá tem vindo a melhorar a olhos vistos eu quero estar a par do que de melhor por cá se faz e que por cá se premeia. Hoje decidi falar de alguns dos vencedores da premiação deste ano, de alguns que já vi e que recomendo e de alguns que ainda não vi, mas que já ouvi falar muito bem.

"A Herdade" e "Variações" foram os únicos filmes portugueses que vi o ano passado e foram dos melhores filmes que vi a serem produzidos em Portugal nos últimos tempos. Histórias com importância e contadas de forma a prender o espectador. Gostei bastante de ambos os filmes e fiquei também feliz por serem os grandes vencedores da noite. Recomendo muito os filmes e podem ver a minha opinião dos filmes aqui

Mas nesta premiação foram também galardoados filmes que me despertam muita curiosidade e que ainda não tive oportunidade de assistir. "Tristeza e Alegria na vida das Girafas" foi um dos filmes que estreou o ano passado e que me deixou sempre curiosa para o ver. Pareceu-me sempre um filme mais indie, meio fora da caixa, que conta a história de uma menina de 10 anos que acompanhada por um urso com tendências suicidas percorre Lisboa em busca do primeiro ministro para a ajudar a fazer um trabalho da escola. Pareceu-me um filme que aborda muito a questão da crise financeira e social e a forma como uma criança olha para ela. 

"Diamantino" foi um filme que com o qual, confesso, fui um pouco preconceituosa ao início. A história gira em torno do maior jogador de futebol do mundo que um dia perde o seu talento e abandona a sua carreira. A partir daí ele embarca numa viagem em busca do seu talento. Como tem a temática do futebol e tem a tendência para o mito do melhor do mundo eu acabei por o deixar sempre de lado das minhas escolhas para o assistir, mas a crítica ao filme, pelo menos do que tenho ouvido, é sempre muito positiva e por isso fui ficando cada vez mais curiosa com o filme. 

"O Grande Circo Místico" é um co-produção do Brasil, França e Portugal e vence nesta premiação o prémio de Melhor Direcção Artística, e este é um filme sobre circo. Mais propriamente as cinco gerações que já passaram pelo Grande Circo Místico. Pareceu-me sempre um filme com uma imagem muito bonita e que nos remete sempre para a magia do circo. Um dia tenho mesmo de o ver. 

"Até que o Porno nos separe" ganhou nesta premiação por melhor documentário. Um que eu quero muito ver desde que ele foi anunciado. Já deu na RTP2, mas na altura não o consegui ver e descobri agora que se encontra no catálogo da RTP play, por isso é desta que o vou mesmo ver. Conta o drama de uma mãe ao descobrir que o seu filho é actor de filmes porno e como isso vai afectar a relação de ambos. Não deve ser uma realidade fácil e a coragem desta mãe em dar a cara pelo documentário pareceu-me sempre de uma coragem enorme. Por isso estou curiosa para ver como abordaram todas estas questões ao longo do documentário.

Já "Sul" ganha o prémio por melhor série ou telefime e esta é uma série produzida para a RTP1 e gira em torno de alguns casos de homicídio ocorridos na altura da crise económica e social. Com um elenco de luxo confesso que esta série me tinha passado um bocadinho ao lado, mas a mesma entrou recentemente no catálogo da HBO Portugal e isso fez com que a minha curiosidade sobre ela aumentasse. E agora claro com este prémio também.

E vocês? Acompanharam estes prémios? Que filme ou série portuguesa mais estão curiosos para ver ou que me recomendam?
   



CINEMA | MULAN

21/09/2020

O filme de animação Mulan é um dos meus filmes favoritos da Disney. E por isso eu estava muito curiosa para ver esta nova adaptação live action. Depois de meses à espera porque uma pandemia decidiu meter-se no caminho da estreia deste filme, finalmente a Disney decidiu lançar no seu novo serviço de streaming e nós pudemos vê-lo. E adorei, e hoje partilho com vocês toda a minha opinião.

A história da Mulan já é por todos conhecida. Na China na época da dinastia Wei do Norte o país é invadido pelos Hunos, uma força negra e implacável que obriga o imperador a criar um novo exército e a recrutar um homem por cada família da China. A família de Mulan é apenas constituída pelo pai e pela mãe e pela sua irmã, e é quando os guardas reais chegam à sua aldeia com esta notícia que o seu pai já muito debilitado se voluntaria uma vez que é o único homem da família. Só que a Mulan não se conforma e acaba durante a noite por pegar na armadura do pai e juntar-se ela ao exército disfarçada de homem. Mas Mulan é uma grande guerreira e por isso vai surpreender todos ao ajudar a derrotar a força dos Hunos. 

Como grande fã do filme de animação confesso que estava muito entusiasmada com este filme mas também muito preocupada e com medo de não gostar. Mas não foi nada disso que aconteceu, eu adorei o filme. O mesmo está bastante fiel ao original de animação, tirando umas coisinhas das quais já irei falar mais à frente. O filme retrata uma China ainda muito tradicional, e gostei bastante de ver no início do filme uma Mulan muito trapalhona mas já bem ciente dos poderes que tem. Gostei também muito de ver a parte em que elas visitam a casamenteira e toda essa preparação que para a Mulan é tão stressante mas ao mesmo tempo muito importante para o seu processo de auto-descoberta. Aqui foi o primeiro momento em que senti falta de o filme ser um musical. A música "Reflections" é uma das mais bonitas e importantes da história e cantada no momento inicial do filme é também ela importante. A música é de tal forma importante que é também neste live action sempre a banda sonora quando passam imagens da Mulan quer em momentos mais tristes quer em momentos mais impactantes e de mais força. A dúvida de quem é esta Mulan é sempre aquilo que rege este filme, será a mulher delicada e de família que todos esperam ou a mulher guerreira que é capaz de superar todos os obstáculos no campo de batalha.

O filme live action pareceu-me sempre muito mais sóbrio do que a sua versão animada. Talvez por se passar na China e abordar toda essa época dos imperadores quiseram dar ao filme um tom mais sóbrio e duro, que eu gostei bastante. Acho que não se afasta totalmente da sua versão original ao mesmo tempo que sim e que se torna algo mais sério, mais adulto, mais relacionável com qualquer pessoa e não só com o público alvo das crianças. Posso dizer que a única coisa que não gostei de todo no filme, apesar de perceber a sua simbologia do feminino, foi a "bruxa" que aparece a ajudar os Hunos que serve para ajudar no fundo a Mulan a perceber o seu valor e que apesar de mulher ela também poderia ser parte do exército. Mas acabei sempre por a sentir deslocada e sem direcção neste filme, talvez por não ter qualquer relação com o original. Ao filme acabou por me fazer falta talvez só o Mushu o dragão que acompanha a Mulan e que é o enviado dos deuses para a acompanharem. Os deuses são mencionados pelo pai da Mulan, mas aqui quem a acompanha e protege é uma fénix, símbolo da renovação. Também não foi perfeito para mim, mas entendo o seu significado. O filme tem uma fotografia e uma banda sonora fantásticos que foi uma das coisas que mais me arrebatou no filme. Gostei de todas as recreações, desde a aldeia até ao campo de batalha, até ao grupinho meio estranho que acaba por se tornar amigo da Mulan.

A lição de moral do filme acaba por recair no valor moral de família. É isso que Mulan acaba a buscar no filme, a aprovação da família apesar do que fez que na altura seria a sua desonra. Confesso que gostei muito desta parte e acabei mesmo o filme a verter uma pequena lágrima. Mas mais uma vez senti falta da figuram da avó que está presente no filme de animação e que aqui acho que também teria feito sentido.

Mas há críticas às quais o filme não se consegue escapar. Quando o filme foi anunciado o maior problema que lhe apontavam era quanto ao romance. Muito se tem dito sobre o filme de animação e como o mesmo aborda mesmo sem o querer, digo eu, a homossexualidade, uma vez que o Shang se apaixona pela Mulan quando ela ainda se apresenta como um homem. Neste filme gostei que tivessem mantido o interesse amoroso ao longo de todo o filme, mesmo que o tivessem relegado para o tema menos importante da trama. Manteve-se um bocadinho fiel ao original, mas não lhe deu tanta importância. Outras críticas que tenho lido nos últimos dias ao filme prendem-se com questões políticas da produção e da localização onde ocorreram as filmagens do mesmo. Ocorreram em Xinjiang, um local que pertencia a uma minoria muçulmana Ugur e que recentemente após conflitos foi convertida, e também porque parte do elenco deu o seu apoio positivamente o governo nestas politicas. Foram factos que me entristeceram e que apesar de não me fazer desgostar do filme me faz sentir triste por sentir que a produção do filme poderia ter feito a diferença e não o fez.

 É um filme que vale a pena ver e que recomendo muito, não só para quem já é fã da versão animada como também para quem nunca viu e quer ver uma versão mais adulta e sóbria da história. 

TV SHOWS | SENSE 8

18/09/2020

Desde que eu ouvi falar desta série que eu sempre a quis ver. Sabem quando têm aquela sensação de que vão adorar uma coisa? Eu sabia que ia adorar esta série. Não estava enganada e é uma série que eu recomendo muito que vejam.

"Sense8" conta-nos a história de 8 pessoas distribuídas por 5 continentes que um dia começam a sentir-se conectadas umas com as outras. Ao início através de cheiros e sensações e com o evoluir da conexão através de imagens, sentimentos e pensamentos. De repente eles conseguiam viajar pelos vários sítios onde cada um estava e sentir e ser a outra pessoa. Mas de repente percebem também que esta ligação que os une tem um preço e que se a querem preservar terão que se unir e lutar pela sua sobrevivência.

A série foca-se na ideia de sensate e de pessoas que estão ligadas pelo nascimento umas com as outras e na ideia de que estas pessoas conseguem partilhar tudo no sentido sensitivo. Conhecemos o polícia norte-americano Will (Brian J. Smith), a DJ islandesa Riley (Tuppence Middleton), a blogger transexual de São Francisco, Nomi (Jamie Clayton), o actor mexicano Lito (Miguel Ángel Silvestre), a executiva sul-coreana Sun (Doona Bae), a farmacêutica indiana e devota hindu Kala (Tina Desai), o motorista queniano Capheus (Toby Onwumere) e o criminoso alemão Wolfgang (Max Riemelt). E conhecemos também o Whispers aquele que com a ajuda de uma organização está a tentar encontrar todos os sensates do mundo para os utilizar como armas humanas. E é quando este grupo se conhece que juntos vão tentar acabar com esta organização e acima de tudo com este ser maléfico.

Mas esta série criada pelos irmãos Wachowski, também conhecidos pelo Matrix, é muito inteligente ao colocar não só a parte da ficção cientifica mas também o lado mais sensível do ser humanos ao nos mostrar todos os dramas familiares e amorosos de cada um dos elementos do grupo, e como isso os vai influenciar e afectar à medida que cada obstáculo vai aparecendo. Pode ser a prisão da Sun ou a descoberta da homossexualidade do Lito. Cada um vive o seu drama e cada um vai contribuir para a história com lições e ensinamentos que o espectador vai gostar de ver nesta série. E é engraçado como a série apela sempre à união do grupo e ao contributo de cada um, porque afinal somos todos diferentes e todos temos formas únicas de encarar e resolver um problema, sejam as aptidões informáticas da Nomi, as artes marciais da Sun, o talento para actor do Lito e por ai fora. Afinal deveria ser assim a humanidade, perante cada adversidade da vida todos nós deveríamos aproveitar a individualidade de cada um para combater o problema. 

Esta série para além de contar com um elenco tão diversificado e tão fantástico contou ainda com uma produção megalómana ao ser filmada nos 5 continente e em muitas cidades. Trouxe riqueza cultural à série e uma realidade que meros cenários não o poderiam ter trazido. Mas o que mais gostei nesta série foi sem sombra de dúvidas o núcleo principal e aquilo que sempre me conseguiram passar ao longo da série. Mais do que o tema de ficção científica que é abordado os dramas reais de cada um tocaram-me muito e senti sempre a carga emocional que cada actor colocava nele. São dramas reiais, como a transsexualidade, a homossexualidade, a perda de um filho, a traição de um familiar, a religião, a diferente cultura em que se nasce, a pobreza. Todos eles me tocaram e me fizeram sempre ficar expectante pelo próprio episódio.

Com muita pena minha a série foi cancelada após a sua segunda temporada, mas não posso deixar de recomendar porque é uma série espectacular.

TV SHOWS | UNORTHODOX

17/09/2020

Confesso que quando esta série estreou eu não me senti muito tentada a vê-la. Mas rapidamente as pessoas à minha volta me começaram a falar dela e lá me conseguiram convencer a dar-lhe uma oportunidade, e claro que eu adorei e hoje falo-vos um bocadinho dela.

"Unorthodox" conta-nos a história da Esther uma jovem judia que vive na comunidade hassídica Judaica de Williamsburg em Nova Iorque. Ela com apenas 19 anos e prometida a um jovem, casa e começa uma nova vida naquela comunidade. Mas ela nunca se sentiu daquela comunidade, ela queria mais, e passados uns meses do seu casamento ela decide fugir para a Alemanha e ir à procura do seu verdadeiro eu.

A série é baseada na história da Deborah Feldman, que também participa na produção da série, e tal como nos é contado na série um dia decidiu fugir daquela comunidade e ir em busca da sua felicidade. Eu quando comecei a ver esta série confesso que não sabia nada sobre esta comunidade, sabia que existiam assim umas comunidades mais radicais, mas não tinha conhecimento desta em específico. E a série faz um bom trabalho para nos mostrar aos poucos como ela é. Através de flashbacks a série mostra-nos como foi para Esther crescer nesta comunidade, que história ela tem, que tradições e rituais eles ainda perpetuam, quais são os valores deles e acima de tudo aquilo que ela representa para quem nasce nela. Mas também através destas viagens no tempo ficamos a perceber como está a ser para ela conhecer o mundo fora daquela comunidade, quando ela desembarca na Alemanha. 

Como eu não sabia nada deste mundo dei por mim a pesquisar ao longo da série o que era esta comunidade. Então basicamente depois da Segunda Guerra Mundial uma pequena parte da comunidade judaica acreditava que os judeus tinham sido quase completamente dizimados e por isso decidiram criar esta comunidade baseada no ideal da procriação para o repovoamento da comunidade judaica. Para isso assentam a sua criação e educação na leitura do seu livro bíblico, no pilar do homem na família, dos muitos filhos, do pouco estudo e também dos poucos acessos ao mundo exterior como a televisão, os telemóveis ou a internet. Apesar de viveram numa das maiores metrópoles do mundo numa comunidade sem qualquer portão que os prenda lá dentro. Por isso quando eu começo a ver esta série e a perceber o quanto uma religião pode moldar os horizontes de uma pessoa confesso-me que fiquei um pouco chocada e triste com as pessoas que "parece" que não conhecem melhor do que aquilo. Por vezes quando conhecemos religiões tão extremistas pensamos em locais isolados e até fechados, mas este está aberto, eles passeiam pelas ruas de Nova Iorque. Mas as suas estruturas religiosas e os seus líderes são tão fortes e imponentes que mesmo que fujam a fuga nunca é fácil. E esta, mostrada nesta série, é até algo soft e esperançosa, mas pelos relatos que li a realidade é bem mais dura e perigosa.

Eu gostei muito desta série. Não só pelo tema maior que abordam o da comunidade e o da própria personagem, mas pelos pequenos temas que trazem como o tema do vaginismo, da homosexualidade ou todos aquelas gritantes que se vivem na comunidade. É uma série muito bonita tanto em termos de realização como de fotografia. Mas confesso que aquilo que mais me encantou foi a recriação da própria comunidade. Para quem viu um vídeo da netflix dos bastidores da série viu que os produtores da mesma foram até à comunidade fazer algum trabalho de campo e conseguiram recriar os prédios deles, as roupas, os cabelos, os fatos dos homens, os shtreimel, os chapéus que os homens usam, culminando claro na recriação do casamento da Esther que para mim é um dos pontos altos da série em termos de recriação. Não só porque é completamente diferente do que estamos habituados a ver como é de uma beleza de imagem muito interessante. Outro aspecto interessante que a série tem é o facto de ter actores judaicos e mesmo alguns que fugiram de comunidades como a retratada na série. E também claro o facto de a série ser na maioria falada em iídiche a língua dos judeus ortodoxos, o que dá à série ainda maior qualidade cultural.

É uma série que eu recomendo muito pelo todo que ela é, e pela chama de esperança que trás. Vale muito a pena.



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