TV SHOWS | PATRIA

12/11/2020

Quando vi este lançamento da HBO fiquei logo muito curiosa. Gosto muito das produções espanholas e meio sem saber do que se tratava a série mergulhei nela e só vos posso dizer que foi muito doloroso ter que esperar uma semana para ter cada novo episódio. Podem ver que adorei a série e é sobre ela que vos falo hoje. 

"Patria" é uma série baseada no livro com o mesmo nome de Fernando Aramburu que segue a vida de duas famílias em particular em lados opostos do conflito armado do país Basco pelo grupo terrorista ETA. Estas famílias outrora muito amigas, viviam uma vida e uma relação de família numa vila do País Basco quando o grupo terrorista ETA começa a espalhar os seus ideais e começam a recrutar jovens ávidos pela liberdade do seu pequeno território. Esta é uma série e um livro sobre o que este conflito armado causou na vida destas pessoas que até aos dias de hoje continua a marcar.

A série começa quando Bittori se dirige à sua vila natal no dia em que a ETA anuncia o abandono do conflito armado. Esse é também o primeiro dia do regresso à vila onde viu o seu marido ser morto às mãos daquele grupo terrorista, e é também o regresso à terra que um dia os desprezou, marginalizou e por fim os expulsou. A série vai então começar a contar a história de uma parte de Espanha e das pessoas que lá vivem. A história de uma terra que um dia quis ser independente e que não olhava a meios para atingir os seus fins, nem que para isso tivesse que manipular e até matar os seus próprios conterrâneos. A história contada neste livro e nesta série foca-se nestas duas famílias e em todos os seus protagonistas, mas é também o espelho de muitas famílias que viveram estes anos com todo este sofrimento. Famílias despedaçadas pela morte dos seus e tudo aquilo que isso implica ou até famílias separadas pelas consequências de ser membro activo desta luta. 

Lembro-me ainda de na minha infância ver na televisão um ou outro comunicado do grupo terrorista ETA. Lembro-me de saber que eram da nossa vizinha Espanha, mas nunca percepcionei muito bem tudo aquilo que este grupo significava. Mais tarde acabei por visitar uma cidade do País Basco e pude percepcionar ainda algumas marcas de todos esse movimento activista e aquilo que deixou de raízes naquele povo. A primeira coisa que notamos logo é o facto de quase ninguém falar o Castelhano como primeira opção, entre eles a primeira escolha vai para o basco, língua oficial daquela região. E depois, coincidência ou não, notamos logo que é uma região muito fria, onde chove muito, o que nos remete sempre para um lado melancólico da história daquela zona que também é retratada na série. A ETA, até 2006 continuava no activo da luta armada, ano em que anunciaram o fim da luta armada e a tomada de um caminho mais democrático na luta.

A série não segue uma linha temporal nem de tempo nem de lógica na contagem da história. Ela segue avanços e recuos, linhas temporais do presente e do passado, a história de um e de outro. mas de repente tudo faz sentido e nós começamos a estar embrenhados numa história de luta, de amor, de sofrimento, de raiva, de perdão. Esta história mostra-nos que num conflito, e principalmente neste, nem sempre há vencedores. Muitas vezes são mais as vítimas do que os vencedores. Txato, a vítima principal desta série, era um natural do País Basco que por ter uma empresa bem sucedida acaba a ser chantageado pela ETA para lhes dar dinheiro para ajudar a suportar o conflito. Quando ele não acede ao pedido acaba assassinado. O que terão sentido tantos bascos que não sentindo aquela como a sua luta o terão sido arrastados para ela mesmo sem querer, mesmo estando a contribuir para a comunidade como ele com emprego, mesmo sendo o cidadão mais exemplar. O que terão sentido tantos bascos quando de um dia para o outro passaram de ser amigos, colegas, confidentes, para desertores e a quem todos virariam as costas. O que ainda sentirão tantos bascos com todo este conflito que ainda deverá pairar por tantas famílias cujos familiares morreram, foram assassinados ou estão presos. Que marcas deixará um conflito destes na vida destas pessoas. 

É desta carga emocional que esta série é feita. Sente-se em cada protagonista a raiva, o desprezo, a mágoa, a solidão, a desilusão e o amor. É com isto que a cada episódio vamos ficando mais e mais embrenhados nesta série e também nós vamos começando a sentir aquilo que eles também estão a sentir. É com esta carga emocional que cada actor vestiu a pele do seu personagem e nos transmitiu com a maior das clarezas tudo aquilo que o personagem estava a sentir e que também nós começamos a sentir. A produção técnica desta série é tão fantástica que é impossível ficar indiferente a cada momento desta história. E os actores desta série são tão bons, e tão precisos nos seus papeís que quase nos parecem pessoas que viveram tudo aquilo e sabem mesmo do que estão a representar. Gostei muito que os actores fossem sempre os mesmos em cada momento temporal, recorrendo a maquilhagem para os envelhecer, mas tornando-os credíveis em toda a passagem do tempo.

Como podem ver foi uma série que me marcou muito e que eu só posso recomendar. É uma das minhas séries favoritas do ano e uma que vou guardar para sempre na minha memória. Um dia ainda terei coragem para ler o livro que já ouvi dizer que também é muito bom.

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