CINEMA | THE SHAPE OF WATER

"The Shape of Water" confesso que era o filme que eu mais estava ansiosa por ver dos nomeados aos Oscars. Por ser diferente e por ser de um realizador tão afamado e do qual eu ainda não tinha visto nada. Demorei a ver porque o queria ver no cinema e também à medida que o tempo ia passando as opiniões das pessoas iam deixando de ser tão positivas, e eu já começava a pensar que não iria gostar do filme. Lá o fui ver e posso dizer que apesar de o filme não ser tudo aquilo que eu imaginei o mesmo me surpreendeu e eu gostei muito dele.
Em 1963, durante o auge da Guerra Fria, Elisa (Sally Hawkins), uma solitária empregada de limpeza muda que trabalha num laboratório governamental, vê a sua vida mudar para sempre quando, com a sua colega Zelda (Otavia Spencer), descobre o resultado de uma experiência ultrasecreta: um estranho ser aquático que vive num tanque.
Estamos em plena Guerra Fria e neste filme conhecemos Elisa uma mulher muda que vive sozinha num apartamento por cima de um cinema. Apesar de feliz ela sente-se sozinha e vive uma vida só dela. É vizinha de um homem mais velho e também ele solitário um pouco pelas regras da sociedade e trabalha num laboratório governamental. Todas as noites ela desloca-se até ao trabalho onde faz limpezas com uma colega muito faladora. Tudo vai mudar quando a esse laboratório chega uma criatura, muito estranha e diferente, com a qual Elisa vai criar laços.

E o que muitos acham ser apenas mais uma história de amor entre um humano e um peixe é tão mais que isso. Este foi para mim um filme surpresa. Não estava à espera de um filme tão bonito e tão bem produzido, não estava à espera de um filme tão divertido e com um humor bem inteligente e não estava à espera de um filme tão abrangente de temas como foi. Elisa é uma mulher já adulta que vive num mundo só dela. Sendo muda as pessoas da época acabavam por a menosprezar e ela acabou por criar o seu espaço e o seu mundo. Não tem problemas em masturbar-se e mostrar que é uma necessidade do ser humano e que mesmo estando sozinha não é ninguém ingénuo nem nas questões sexuais como na sua vida. É também uma alma sonhadora que partilha uma grande paixão com o seu vizinho a dos musicais clássicos. Ele que é um pintor em decadência vive uma orientação sexual camuflada porque na época as coisas não eram bem vistas. E depois temos a personagem da amiga e colega de trabalho de Elisa que esconde o seu lado mais amargurado pelo marido não reconhecer o trabalho dela com o seu lado mais falador e humorado. Pelo meio vamos conhecer o chefe resingão Richard que passa por alguns arcos no filme mas que acima de tudo se demonstra um homem frustrado com a sua vida pessoal e acima de tudo profissional. E por fim claro um dos nossos protagonistas o animal que acaba por ser o enfoque do filme e que lhe dá beleza e dimensão.

O amor pelo estranho e pelo diferente acho que foi aquilo que fez o realizador fazer este filme. Amar alguém diferente seja ele mudo, homossexual, mulher, ou apenas um animal estranho marinho não é fácil e requer que sejamos mais humanos, melhores pessoas. Perceber os pequenos detalhes como uns ovos cozidos faz toda a diferença e acho que essa é a maior mensagem que o realizador nos quer passar, e é incrível como à medida que vou pensando no filme e vou ouvindo mais e mais opiniões dele, mais eu vou gostando do filme. Sim é diferente, cliché e com um final previsível, mas é acima de tudo uma fábula para adultos cheia de mensagens que temos que estar atentos.

À parte disso o filme ganha pelo seu visual, desde logo cénico com cenários muito bem pensados e construídos, como os laboratórios, os apartamentos, os autocarros ou o cinema. O guarda-roupa e cabelos também muito à época e claro está a maquilhagem e produção do homem anfíbio que está espectacular e que me espantou muito ao não arrecadar a nomeação para o Oscar de melhor maquilhagem.


Enfim, um filme que apesar de não ser perfeito vale muito a pena ser visto e acima de tudo acho que vale a pena ser visto com um espírito aberto.


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